domingo, 10 de setembro de 2017

Suicídio e a razão de viver



Os cientistas que buscam decifrar o gene do suicídio

Motherboard\Vice





Casos de suicidas na mesma família abriram as portas para uma longa investigação: a tendência a tirar a própria vida está ou não no DNA?

Uma carreira política, um bilhete de despedida, um tiro de revólver. Há três gerações, a história se repete na família Vargas. Tudo começou em 24 de agosto de 1954, quando o então presidente da República, Getúlio Dornelles Vargas, de 72 anos, saiu da vida para entrar na História com tiro no peito. Em 15 de janeiro de 1997, um dos cinco filhos dele, Manuel Antônio Sarmanho Vargas, de 79 anos, repetiu o gesto do pai. Deu fim à própria vida com um disparo no coração. No último 17 de julho, foi a vez de Getúlio Dornelles Vargas Neto, de 61 anos: a polícia descobriu um ferimento de arma de fogo na cabeça e, ao lado do corpo, uma carta de despedida endereçada à família.

Casos assim não são raros. O mais famoso deles talvez seja o de Ernest Hemingway, que se matou com um tiro de espingarda, em 2 de julho de 1961. Cinco membros do clã do escritor – incluindo seu pai, um irmão e uma irmã – tiraram a própria vida. Diante disso, uma pergunta é inevitável: qual a parcela de culpa da genética em casos de suicídio em família? Será que existe, de fato, um gene do comportamento suicida? "O comportamento suicida, bem como o comportamento humano de forma geral, tem inegável determinismo genético", afirma a bióloga Sandra Leistner-Segal, do Laboratório de Genética Molecular do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. "No entanto, as formas de transmissão são complexas e ainda pouquíssimo compreendidas."

Pelo mundo afora, pesquisadores das mais conceituadas universidades tentam descobrir se, afinal, a tendência a se matar está no DNA. O protocolo das pesquisas, na maioria dos casos, obedece ao mesmo ritual: recrutam-se voluntários com diagnóstico de depressão ou transtorno bipolar. Desses, investiga-se quantos já tentaram o suicídio. Em seguida, compara-se o DNA desses suicidas em potencial com o de indivíduos saudáveis. As descobertas são variadas: Zachary Kaminsky, da Universidade Johns Hopkins, nos EUA, concluiu que o comportamento suicida está ligado a uma variação no gene SKA2. Já Virginia Willour, da Universidade do Iowa, identificou o gene ACP1 como relacionado à tentativa de suicídio. J. John Mann, da Universidade de Columbia, por sua vez, está convencido de que a chave do enigma está numa mutação do gene GSR2. Qual deles está com a razão?

"Um dia chegaremos perto de identificar os genes de transtornos mentais. Quando esse dia chegar, desenvolveremos drogas preventivas que reduzirão incidência de esquizofrenia, por exemplo."
"As pesquisas em genética permitiram identificar inúmeras variações na sequência de DNA que podem ter efeito na gênese do comportamento suicida. No entanto, esse efeito ainda é muito pequeno ou insuficiente", pondera o psiquiatra Jair Segal, que concluiu seu doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com o tema Aspectos Genéticos do Comportamento Suicida. "Ao contrário do que se pensava inicialmente, um único gene ou conjunto de genes não pode ser responsabilizado pelo comportamento suicida. O fenômeno é multigênico", afirma Segal, que coordena a equipe de Saúde Mental do Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Porto Alegre.

Mais que multigênico, o suicídio é fenômeno multifatorial. É o que faz questão de salientar a psiquiatra Alexandra Meleiro, doutora pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora da Comissão de Estudo e Prevenção ao Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Dos 32 suicídios registrados por dia no Brasil, segundo estimativas do Ministério da Saúde, quantos são provocados por fatores genéticos e quantos são motivados por razões ambientais? Impossível saber. "Há indivíduos que têm predisposição genética e continuam vivos, e há outros que não têm e se suicidam", diz Meleiro.

No caso da família Vargas, o que mais chama a atenção de Alexandrina é o fato de os três – pai, avô e neto – terem tirado a vida depois dos 60. "Em geral, quando existe um componente genético, o suicídio se dá em uma idade mais jovem. Na terceira idade, costumamos dizer que os indivíduos não desenvolveram estratégias de enfrentamento dos problemas", explica a psiquiatra, referindo-se, entre outros motivos, ao acúmulo de perdas (de saúde, autonomia, produtividade, etc) e ao isolamento social. No Brasil, o número de casos de suicídios entre idosos, a propósito, subiu inacreditáveis 215,7% entre 1980 e 2012. 

Dá para saber pela genética se alguém tem tendência a se matar?
Muitos dos que hoje se dedicam a investigar o DNA do suicídio sonham, no futuro, detectar, por meio de testes genéticos, se um determinado indivíduo tem propensão a se matar. Para o psiquiatra Neury José Botega, do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a hipótese acima está mais para Os Jetsons que outra coisa. Mesmo assim, ele não perde as esperanças. "Um dia, acredito eu, chegaremos perto de identificar os genes de inúmeros transtornos mentais. Quando esse dia chegar, desenvolveremos drogas preventivas, que conseguirão reduzir a incidência de esquizofrenia, transtorno bipolar etc. Esse dia ainda está longe de chegar, mas o cara que descobrir isso leva o Nobel de Medicina", diz.

Enquanto esse dia não chega, Botega aconselha cuidar melhor de nossas crianças. "Estimulando a empatia, desenvolvendo a resiliência, respeitando as minorias", diz o psiquiatra. Alexandrina Meleiro concorda. Algumas medidas de prevenção do suicídio são: aumentar o esclarecimento da população sobre os transtornos mentais – 90% dos suicidas são portadores de distúrbios, muitas vezes não diagnosticados –, propor iniciativas eficazes como o Centro de Valorização da Vida (CVV) que oferece esperança e restringir o acesso a meios letais, como gás encanado, pesticidas tóxicos e armas de fogo. "Não precisamos esperar a ciência descobrir o gene do suicídio para começar a pensar em prevenção. No Brasil, o oitavo país do mundo em números absolutos de suicídio, a cada 45 minutos uma pessoa tira a própria vida. A prevenção começa hoje. Quanto mais cedo, melhor", alerta Alexandrina.


sexta-feira, 28 de julho de 2017

É, agora nos recriamos e mais além



Está acontecendo: cientistas criaram um embrião humano geneticamente modificado
·        PorKate Lunau
·        Traduzido porAmanda Guizzo Zampieri;
Jul 28 2017, 5:26pm
  retirado de Motherboard








E agora?
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Pesquisadores de Portland, no estado de Oregon, nos Estados Unidos, utilizaram o CRISPR, uma ferramenta poderosa de edição de genes para criar embriões humanos geneticamente modificados, conforme relatou a MIT Technology Review, na quarta-feira, com exclusividade. Trata-se do primeiro caso confirmado de edição genética em embriões humanos nos EUA, aproximando os cientistas da capacidade de criar seres humanos alterados geneticamente.
Mas antes, um pouco de contexto. O CRISPR, muitas vezes comparado à função de copiar e colar dos processadores de texto, é uma técnica de engenharia genética poderosa e recente, que permite aos cientistas realizar alterações específicas no DNA de uma planta, animal ou ser humano. Relativamente barata e fácil de ser utilizada, os cientistas afirmam que podem controlar essa ferramenta poderosa para curar uma série de doenças, como o HIV e a distrofia muscular. Entretanto, alguns experimentos levantaram dúvidas -- em 2015, cientistas chineses a utilizaram para criar cães Beagle extremamente musculosos -- e especialistas em ética têm alertado para a rápida edição de genes em humanos. O fato de ser uma ferramenta de fácil utilização deixa muita gente desconcertada: a comunidade de inteligência norte-americana advertiu em 2016 que a edição de genes é uma potencial arma de destruição em massa.
Além do medo de que a edição genética levará a um mundo de crianças projetados em laboratório, e a exclusão de certas características genéticas, o CRISPR é uma novidade, cujas consequências ainda desconhecemos.
Muitos países têm algum tipo de proibição com relação à edição de genes em embriões humanos, embora as regulamentações e os pontos de vista estejam aparecendo conforme o uso do CRISPR aumenta nos laboratórios. Este ano, a Academia Nacional de Ciências dos EUA afirmou que a edição do DNA de embriões humanos poderá ser permitida a fim de curar algumas doenças, contanto que com determinadas proteções e condições.
Porém, os cientistas estão pressionando. Equipes na China editaram embriões humanos ao menos três vezes. No início do ano, uma equipe chinesa relatou uma inédita: a utilização do CRISPR para corrigir mutações genéticas em três embriões humanos normais. (Testes anteriores foram realizados em embriões do tipo não viável, os quais não poderiam gerar fetos. De acordo com a Technology review, o experimento norte-americano destruiu os embriões dentro de alguns dias, pois não havia a intenção de implantá-los.)
Cientistas nos EUA assistiram aos desenvolvimentos na China "com um misto de admiração, inveja e um pouco de preocupação", a Technology Review relatou. Aparentemente, eles estão ansiosos para tentar fazer o mesmo.
Esse último teste de edição genética foi conduzido por Shoukhrat Mitalipov, da Universidade de Saúde e Ciências do Oregon, que também estava por trás dos primeiros macacos clonados em 2007. Mitalipov não quis comentar à Technology Review, e afirmou que os resultados estão aguardando a publicação em um periódico científico. Mitalipov também não respondeu imediatamente a um e-mail solicitando comentários para o Motherboard.
A Technology Review não pôde confirmar em seu relatório quais foram as doenças genéticas visadas no estudo, apesar de uma fonte ter contado à publicação que "muitas dezenas" de embriões foram criados a partir de doadores de esperma com mutações de doenças hereditárias. O experimento norte-americano parece ter melhorado resultados anteriores da China, onde o CRISPR causou erros de edição e funcionou inadequadamente, tendo utilizado somente algumas células. Uma fonte anônima chamou isso de "princípio de prova" no relatório.
Cientistas que utilizam o CRISPR têm um argumento muito bom para o seu trabalho -- quem resistiria a uma tecnologia com o potencial de curar tanto a vida quanto a morte?
Contudo, a ciência não acontece no vácuo, e mesmo as intenções mais nobres podem nos levar a uma situação não intencionada. Os experimentos de Mitalipov, entre outros, estão construindo o caminho para um futuro em que será possível curar diversas condições terríveis, mas também carregam consigo a possibilidade real de criar seres humanos "projetados", e programar desigualdades em nosso DNA.
Existem diversas barreiras legais em lugares como os EUA, as quais evitam a criação de um feto geneticamente modificado. Porém, isso não se aplica a todos os países. Estamos nos aprimorando na utilização dessa ferramenta, por isso, não uma questão de "se" vai acontecer, mas de "quando". Como apontado pela Technology Review, "a criação de um indivíduo geneticamente modificado poderá ser feita a qualquer momento".