terça-feira, 11 de agosto de 2015

Um pão de trigo para a humanidade

Atração da Flip 2015, escritor queniano Ngugi wa Thiong’o fala sobre dilemas da África





 GELEDES, GELEDES, vocês são demais...
Publicado há 3 meses - em 3 de maio de 2015 » Atualizado às 12:16 
Categoria » 
Patrimônio Cultural







Em entrevista exclusiva, um dos 

principais autores do continente 

defende a preservação das línguas 

locais

POR GUILHERME FREITAS, do O Globo 




Na década de 1960, enquanto a África vivia o colapso dos regimes coloniais europeus, uma nova geração de escritores africanos despontou no cenário mundial com obras que refletiam sobre as lutas por independência no continente. Eram jovens intelectuais recém-saídos da universidade, que se dividiam entre a participação ativa na campanha pela libertação de seus países, muitas vezes pegando em armas, e a criação de uma literatura africana moderna, ancorada no diálogo entre as tradições locais e a herança ocidental.

Ngugi wa Thiong’o entrou na linha de frente desse movimento em 1967, quando publicou seu terceiro romance, “Um grão de trigo”. Lançado apenas quatro anos depois da independência do Quênia, que deixou de ser colônia britânica em 1963, o livro era ao mesmo tempo uma afirmação da cultura queniana e uma meditação sobre as contradições e incertezas do novo momento do país. Um dos clássicos da literatura africana do século XX, “Um grão de trigo” será publicado no Brasil pela primeira vez em junho, pela Alfaguara, em tradução de Roberto Grey. Ngugi será um dos destaques da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre 1 e 5 de julho, onde lançará também “Sonhos em tempo de guerra” (Biblioteca Azul), primeiro volume de sua trilogia de memórias.

Nascido em 1938, no vilarejo de Kamirithu, região central do Quênia, Ngugi pertence à etnia gikuyu, a mais populosa do país. Foi criado pelas quatro esposas de seu pai, numa casa onde o ritual noturno de contar histórias em torno do fogo era parte sagrada da rotina. Sua infância e adolescência foram atravessadas por conflitos históricos. Primeiro, a Segunda Guerra Mundial, na qual quenianos foram forçados a lutar ao lado dos colonizadores britânicos. Depois, nos anos 1950, a rebelião Mau Mau, quando uma guerrilha anticolonial foi massacrada, mas abriu caminho para a independência conquistada na década seguinte.

Escrito na Inglaterra, onde Ngugi estudou literatura nos anos 1960, “Um grão de trigo” é ambientado nos quatro dias anteriores à declaração de independência do Quênia, em 12 de dezembro de 1963, mas repassa a longa história de choques com o poder colonial. O protagonista do livro é Mugo, ex-prisioneiro político considerado em sua aldeia um herói da libertação, mas que carrega a culpa por uma traição cometida num momento decisivo de sua vida.

Depois do sucesso do romance, escrito em inglês, o autor, batizado como James Ngugi, adotou o nome atual e passou a escrever somente no idioma gikuyu. Em 1977, no governo do presidente Jomo Kenyatta, líder nacionalista exaltado em “Um grão de trigo”, Ngugi foi preso por causa das críticas sociais de seus romances e peças em gikuyu. Libertado um ano depois, continuou a ser perseguido e exilou-se nos Estados Unidos, onde vive até hoje, dando aulas na Universidade da Califórnia-Irvine. Em 2004, quando voltou ao Quênia pela primeira vez depois de 22 anos, sua casa foi invadida por três ladrões, que o agrediram e estupraram sua mulher. Os invasores foram presos e condenados à morte.
Em entrevista exclusiva por telefone, da Califórnia, Ngugi fala sobre sua obra e a conturbada relação com o país natal. Aos 77 anos, um dos maiores escritores africanos vivos, sempre cotado para o Nobel, avalia os dilemas enfrentados pela África desde as independências, diz admirar Jorge Amado e defende a preservação das culturas locais como alternativa para o futuro do continente.

Quais são suas memórias da infância no Quênia durante a Segunda Guerra Mundial?
Como o Quênia era uma colônia britânica, muitos quenianos tiveram que lutar ao lado de seus dominadores. Minhas memórias mais antigas são de comboios carregando soldados armados. Também lembro de prisioneiros de guerra italianos, que eram mandados para o Quênia depois de serem detidos na região da Somália disputada por britânicos e italianos. Eles vinham ao nosso vilarejo nos intervalos do trabalho forçado na construção de estradas. Tentavam comprar ovos e seduzir nossas mulheres.

Qual era o papel das histórias na sua família e na cultura gikuyu?
Cresci numa casa com quatro mães e um pai. Ele estava ausente da nossa vida a maior parte do tempo, mas as mães estavam sempre presentes. Eram elas que nos davam comida, roupas e histórias. Essas histórias que elas contavam eram muito importantes para nós. As gerações atuais podem não ter dimensão disso, por causa da onipresença da TV, do rádio e da internet, mas naquela época o ato de contar histórias era uma atividade diária. À noite, antes ou depois do jantar, as pessoas contavam histórias, desde narrativas ficcionais até relatos de encontros do dia e acontecimentos políticos ou simplesmente boatos que circulavam pelo país. Eram como rituais em que sentávamos ao redor do fogo para ouvir as histórias do dia.

Como muitas famílias quenianas, a sua se viu envolvida na rebelião anticolonial Mau Mau, nos anos 1950. Um de seus irmãos se juntou aos guerrilheiros e outro foi assassinado. Como enfrentaram esse período?
Mal acabou a Segunda Guerra, não fazia nem cinco anos que não víamos mais os soldados, começou a guerra por nossa libertação. É importante lembrar que o nome dos Mau Mau era Exército Terra e Liberdade. Foram os britânicos que criaram essa onomatopeia tola para que o movimento parecesse mambembe e sem foco. Mas o nome era claro: Exército Terra e Liberdade. Muitas famílias quenianas se envolveram na guerra. A maioria ficou ao lado dos guerrilheiros Mau Mau, mas algumas atuaram como força auxiliar da presença militar britânica. Foi declarado um estado de emergência no país entre 1952 e 1960, que instaurava a lei marcial no lugar da lei colonial “normal” — que já era uma espécie de lei marcial, é claro. Toda a população do país foi atingida pelas operações militares, de uma forma ou de outra. Famílias se partiram ao meio, casas foram destruídas, houve um imenso êxodo humano, comparável às maiores tragédias da História.

“Um grão de trigo” se passa no momento da independência, em 1963, mas também recapitula a rebelião Mau Mau e toda a história do colonialismo no Quênia. Um aspecto marcante é a ambiguidade dos personagens: Mugo, o protagonista, é visto como um herói nacionalista em sua aldeia, mas se revela um traidor. Críticos relacionaram esse traço do romance às contradições das independências africanas. Como você avalia a forma como os quenianos lidaram com a independência?
Como romancista, é claro que não me interesso por situações em preto e branco, tento ver as nuances das personalidades e da História. “Um grão de trigo” expressava meus sentimentos na época, quatro anos depois da independência, quando eu sentia que muitas metas da luta pela libertação estavam sendo deixadas de lado pelo novo governo pós-colonial. O romance investigava aquele momento, quando não tínhamos uma ideia clara do que estava errado, mas sentíamos que algo não ia bem. Daí a ambiguidade, talvez.

Quais eram suas maiores preocupações com o Quênia na época?
A forma como o país tratava os guerrilheiros que lutaram pela nossa liberdade, por exemplo. Eles realizaram um grande sacrifício, mas estavam sendo relegados a segundo plano. O que eu estava tentando dizer era: o povo do Quênia, e da África, foi a base do sucesso das lutas anticoloniais e nossa independência só terá sentido se conservarmos a unidade entre os líderes e os povos. Não derrotamos os poderes coloniais porque tínhamos mais armas, e sim porque tínhamos nosso povo. E ainda temos. Precisamos de líderes que saibam que seu poder vem do povo.

Nos anos 1960, muitos escritores africanos lidavam com os temas do colonialismo e da independência, como Wole Soyinka e Chinua Achebe, na Nigéria, ou José Craveirinha, em Moçambique. Qual é o legado da sua geração de escritores para a África?
Soyinka, Achebe, eu e vários outros éramos jovens nascidos sob o colonialismo e estávamos amadurecendo junto com nossos países. Éramos otimistas, não só em nosso discurso, mas também na energia com que nos entregávamos ao trabalho. Nossa energia refletia a energia da luta anticolonial em toda a África, mesmo quando criticávamos o que acontecia. Isso ajudou a criar um sentido de “nova África”, à qual nós demos voz. Nossa geração veio de uma tradição literária que ainda era muito ocidentalizada e ajudamos a formar uma geração cuja tradição literária é o nosso trabalho. Eles podem construir a partir do que nós construímos. Mas há um lado negativo nisso. Quase todos escrevíamos em inglês, francês ou português, então ajudamos a criar uma tradição literária africana na língua dos colonizadores, negligenciando nossas próprias línguas africanas.

Nos anos 1970, você mudou seu nome de James Ngugi para Ngugi wa Thiong’o e passou a escrever no idioma gikuyu. Como chegou a essa decisão?
Uma das contradições da condição pós-colonial é a descrença dos africanos quanto às nacionalidades nativas. Ironicamente, tínhamos mais fé em nós mesmos quando estávamos lutando pela independência. Depois, a classe média africana passou a ter mais fé no que vinha de fora, incluindo os idiomas. Minha posição é a seguinte: podemos fazer parte do mundo sem abandonar nossas bases. Não precisamos abrir mão de nossos idiomas para nos integrar ao resto do mundo. Devia ser justamente o contrário: nossa condição para fazer parte do mundo deveria ser a fidelidade às nossas bases, incluindo nossos idiomas.
Você foi preso no Quênia em 1977, por escrever romances e peças no idioma gikuyu. Por que isso era visto como ameaça pelo governo?
Se você quer se comunicar com as pessoas, tem que falar a língua delas. No fundo, o governo não queria que eu escrevesse em gikuyu por medo de que isso estimulasse as pessoas a tomarem consciência de si. Se você sabe todas as línguas do mundo, menos a sua, isso é escravidão. Mas se sabe sua língua materna e aprende outras, isso é poder.

Em “Um grão de trigo” e outros livros, você tem uma diálogo criativo com autores ocidentais, especialmente Joseph Conrad. Qual foi o papel da literatura ocidental na sua formação como escritor?
Falamos sobre minha educação noturna na casa das minhas mães e as histórias que elas contavam. Como você pode imaginar, essa educação era bem diferente da que tive na escola. Os livros que nos davam em sala de aula eram todos em inglês, fomos educados em inglês. Mais tarde, quando fui estudar em Londres, a literatura inglesa foi parte da minha formação como escritor e como indivíduo. Não posso me livrar da literatura ocidental, nem quero me livrar dela. Mas sei que isso também é parte do colonialismo. Por isso, é importante olhar para outros lugares. Minha libertação mental não veio só com a valorização dos idiomas africanos, veio também com a descoberta de outras literaturas que não a europeia. Lembro até hoje do que senti lendo Jorge Amado. Não falo português, mas mesmo na tradução inglesa tive a sensação de vivenciar o dia a dia descrito nos livros dele.

Quais são os maiores desafios ainda enfrentados pelo Quênia e outros países do continente, décadas depois das independências?
É fundamental não subestimar a importância das independências africanas, mesmo com seus problemas. Mas elas nem sempre significaram a liberdade de um país ou sua real independência econômica. Até hoje, quem extrai o ouro, o diamante e o cobre da África? Quem lucra com isso? Os recursos africanos ainda são controlados por corporações estrangeiras. Um povo só pode dizer que é livre se controla sua economia, sua política e sua cultura. A descolonização só estará completa quando tivermos relações baseadas na troca, não na exploração.

Como é sua relação com o Quênia hoje, depois da prisão, do exílio e do ataque contra você e sua mulher em 2004?
O Quênia hoje tem um clima político melhor. Já não matam dissidentes, nem prendem por traição. A insegurança continua e a economia é instável, mas estou otimista. Hoje sinto que posso ir ao Quênia, já voltei outras vezes desde 2004 e vou de novo em junho. O país está mais aberto.



Você acompanha a nova geração de escritores africanos que começa a ficar mais conhecida no mundo, como a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, o queniano Binyavanga Wainaina e o etíope Dinaw Mengestu? Como ela se compara à sua geração?
É muito animador comparar minha geração com a atual. Na minha época, dava para contar os escritores africanos nos dedos. Hoje são vários — eu mesmo tenho três filhos e uma filha que já publicaram livros (risos). Essa nova geração explora áreas diversas com muita coragem, eles são mais viajados, conhecem o mundo. Minha preocupação é que não vejo muitos deles abraçando línguas africanas. Fico feliz por ver autores africanos fazendo sucesso internacional, mas sinto que as línguas africanas podem morrer se não conseguirmos que os jovens se interessem por elas. Mas como vamos fazer isso se os governos africanos não têm qualquer política para as línguas do continente, e na verdade são até contra elas? Eu gostaria de ver um líder africano falando com seu povo na língua local. Gostaria de ver línguas africanas no currículo das escolas. Gostaria de ver mais livros publicados em línguas africanas, mais traduções entre línguas africanas e de idiomas estrangeiros para línguas africanas. Gostaria de ler Jorge Amado em gikuyu. Por que não?


Leia a matéria completa em: 
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sábado, 25 de julho de 2015

Neil deGrasse Tyson e a curiosidade humana.

Neil deGrasse Tyson: “Políticos Rejeitam a Ciência Por Causa dos Eleitores"

Escrito por
30 April 2015 // 08:00 PM CET

Divulgar a ciência e suas conquistas e principalmente sonhos é uma forma de manter a humanidade aberta ao novo, a criação e a desmistificação do conhecimento. Este homem faz isto na esteira de Carl Sagan, nosso lendário companheiro de raça.
  


O Congresso americano tem golpeado a ciência há anos. De acordo com o astrofísico Neil deGrasse Tyson, chegou a hora de revidar.

Em uma ação que alguns consideraram uma guerra à ciência, o congressista republicano Lamar Smith, presidente do Comitê de Ciências Nacional, fez, no fim de 2014, uma revisão agressiva das concessões distribuídas a agências como NASA, Agência de Proteção Ambiental e Fundação Nacional de Ciências.

Desde então, o Senado reconheceu que a mudança climática é real, mas negou que o problema tenha sido causado pela atividade humana, atando suas mãos em relação ao assunto. Para enfatizar o sentimento do Senado, o senador republicano Jim Inhofe, presidente do Comitê de Meio-Ambiente e Serviços Públicos, levou uma bola de neve a um debate para provar que o aquecimento global não passa de um boato.

É fácil achar tudo isso bizarro e apontar o dedo para as autoridades por causa de suas visões teimosas a respeito da ciência, mas precisamos lembrar que as pessoas em questão foram eleitas pelos americanos. É por isso que Tyson, um dos cientistas mais engajados dos Estados Unidos, diz que o poder é do povo. É nosso.
O Motherboard bateu um papo com o Diretor do Hayden Planetarium (e Astrofísico Mais Sensual de acordo com a People Magazine) para falar sobre ciência, política e como ambos vieram a estar em posições tão opostas.

Motherboard: Existem políticos nos EUA que ainda negam a mudança climática...

Neil deGrasse Tyson: Eles negam a ciência em geral.
“Ciência não é uma série de tópicos. Ciência é uma forma de ver o mundo.”

O que você pensa sobre esses políticos que parecem não aceitar a ciência?

É constrangedor. Mas somos uma democracia, então meu problema não é com o político. Como o político foi eleito? As pessoas votaram nele! Então o desafio não é bem com o político, e sim com o eleitorado. Sou educador. Me volto para o eleitorado, não para o político.

Você é grande defensor da educação científica e da formação de um público mais informado. Quais tópicos importantes todos deveríamos conhecer para nos considerarmos letrados em ciência?

Na pergunta você assume que existe uma série de tópicos.

Espero uma lista de prioridades ou tópicos-chave, algo assim.
Não. Sempre há uma lista de assuntos, mas não é isso que me interessa, não é isso que faço. Dou formas de pensar para abordar esses temas por conta própria.

Ciência não é uma série de tópicos. Ciência é uma forma de ver o mundo, de questionar, de explorar como você obteria respostas para as perguntas. Então você recorre aos temas-chave e diz “céus, aquela pessoa está levantando aqueles dados, mas não é assim que se faz!” ou “essa pessoa disse isso, mas, opa, peraí, aqueles outros sete resultados científicos dizem outra coisa, ele está falando merda!”. Agora pensamos o que são essas pesquisas e as relacionamos umas com as outras. É uma forma de se pensar.

Então não vou dar uma lista a você. Treinarei sua mente para pensar. Não vou dizer o que pensar, nem como votar. Estou dando a você a possibilidade de interpretar o mundo ao seu redor de formas que levem a uma análise objetivamente verdadeira.

O que você pensa sobre esses políticos que parecem não aceitar a ciência?
É constrangedor. Mas somos uma democracia, então meu problema não é com o político. Como o político foi eleito? As pessoas votaram nele! Então o desafio não é bem com o político, e sim com o eleitorado. Sou educador. Me volto para o eleitorado, não para o político.

Você é grande defensor da educação científica e da formação de um público mais informado. Quais tópicos importantes todos deveríamos conhecer para nos considerarmos letrados em ciência?

Na pergunta você assume que existe uma série de tópicos.

Espero uma lista de prioridades ou tópicos-chave, algo assim.
Não. Sempre há uma lista de assuntos, mas não é isso que me interessa, não é isso que faço. Dou formas de pensar para abordar esses temas por conta própria.

Ciência não é uma série de tópicos. Ciência é uma forma de ver o mundo, de questionar, de explorar como você obteria respostas para perguntas. Então você recorre aos temas-chave e diz “céus, aquela pessoa está levantando aqueles dados, mas não é assim que se faz!” ou “essa pessoa disse isso, mas, opa, peraí, aqueles outros sete resultados científicos dizem outra coisa, ele está falando merda!”. Agora pensamos o que são essas pesquisas e as relacionamos umas com as outras. É uma forma de se pensar.

Então não vou dar uma lista a você. Treinarei sua mente para pensar. Não vou dizer o que pensar, nem como votar. Estou dando a você a possibilidade de interpretar o mundo ao seu redor de formas que levem a uma análise objetivamente verdadeira.

Você diz que a NASA é um lugar onde se criam sonhos. O percentual do orçamento federal destinado à agência vem caindo desde 1991. O que você tem a dizer sobre isso?

Posso falar uma coisa a você: no Século XXI, as inovações na ciência e na tecnologia serão as principais forças das economias do futuro. Quando uma nação se pronuncia com “não podemos investir em ciência e tecnologia” pode ser uma tradução para “vamos ficar onde estamos para sempre”. Você manterá a pobreza. Manterá a ausência de riqueza.

Quando as pessoas pensam em investimentos, pensam também em retorno. A ciência tem um horizonte de tempo maior que esse. Não dá pra falar “olha só, resolve isso aqui com a sua ciências”. Não é assim que funciona. Exige visão. Exige mais tempo.

“As pessoas perceberão que se você nega a ciência, interfere na capacidade de criar riqueza.”

Na II Guerra Mundial, pesquisadores de comunicação estudavam como se comunicar com micro-ondas ou ondas de rádio e, durante o processo, perceberam que a água absorvia micro-ondas. O que acontece se você criar uma cavidade e transmitir micro-ondas por ali e então colocar algo com água nessa cavidade – tipo comida? Você pode aquecer comida assim! (Estala os dedos.)

Se você fosse especialista em fornos e eu lhe desse um zilhão de dólares – este não é um número de verdade, é falso, um número falso enorme – e dissesse para fazer um forno melhor, talvez você colocasse algum tipo de isolamento nele, alguns medidores de temperatura, melhorasse seus controles. Você nunca inventaria um forno micro-ondas porque isso vem de outro lugar.

Ciência é uma exploração de tudo que é desconhecido. Depois chegam os tecnólogos e dizem “ei, dá pra eu usar isso, valeu”. É necessária esta visão. Sem ela, pode desistir.

Como você acha que podemos reavivar essa visão e o desejo de explorar e descobrir?

No final, as pessoas perceberão que se você nega a ciência, interfere na sua capacidade de criar riquezas. Nos Estados Unidos, as pessoas querem saber de riqueza, de dinheiro. Talvez não tenhamos afundado o bastante para acordamos e falarmos “minha nossa, o que estamos fazendo? Vamos voltar pro bonde da ciência e tecnologia”.

O desafio a nossa frente continua enorme. Estou dando duro. Por isso que tenho o programa na rádio e o Cosmos e o Twitter e os livros. Digo, não sei quanto mais posso fazer. Mas estou tentando.

Obrigado por tirar um tempinho pra falar com a gente. Fico feliz que tenha conseguido no meio de tanto.


Não há tempo administrado. Tudo é completamente aleatório. Sinto que tudo entrará em colapso a qualquer instante. Estive em Atlanta essa manhã e cancelaram meu voo. Normalmente voltaria para casa com tempo o bastante para dar uma descansada, mas isso que estou vestindo agora é o mesmo que usava no avião mais cedo.
Tradução: Thiago “Índio” Silva

sábado, 27 de junho de 2015

O ser humano e os confins do conhecimento. Nossa viagem é eterna!

Chomsky e Krauss: Por Que Enviar Humanos ao Espaço Se Podemos Mandar Robôs?
ESCRITO POR DANIEL OBERHAUS
24 June 2015 // 09:32 PM CET







Vivemos tempos empolgantes. Pela primeira vez em meio século, vemos uma grande corrida espacial. A cada dia que passa, nossa compreensão de nós mesmos e do nosso universo possibilita enormes inovações nos campos da ciência e tecnologia, tais como computadores que aprendem a se programar e curas para males como o câncer ou AIDS.

Krauss (à esquerda) e Chomsky (à direita) debatem na Universidade Estadual do Arizona. Crédito: ASUOrigin
Em meio a tantas descobertas, analisar as questões científicas com olhar crítico pode ser complicado. Talvez a pergunta mais crucial de hoje seja “a que custo?”. Um exemplo: ir ao espaço é ótimo, claro, mas o que isso significa para o futuro da humanidade quando a exploração se sujeita aos caprichos de empresas privadas? Nossas inovações científicas são impressionantes, beleza. Mas quem as financia e quais são suas motivações?

Quando soube que o linguista e filósofo Noam Chomsky estava vindo à Phoenix, no Arizona, para participar de um debate com o físico Lawrence Krauss, pensei que não poderia deixar passar a oportunidade de discutir esses temas cada vez mais importantes com duas das figuras intelectuais mais proeminentes de nossos tempos. Ambos deram tantas contribuições substanciais às respectivas áreas de estudo que não precisariam serem apresentados, mas, para quem perdeu alguns dos mais emocionantes desdobramentos da física teórica e da política nas últimas décadas, dou uma forcinha.
Desde que começou a publicar seus artigos no começo dos anos 50, Chomsky, professor emérito do MIT, escreveu mais de 100 livros sobre uma variedade impressionante de temas, de linguística à ciência cognitiva, a Guera do Vietnã e os méritos do anarcossindicalismo. Ele também foi eleito como maior intelectual do mundo.

Já Krauss é físico teórico da Universidade Estadual do Arizona e escreve sobre tópicos ligados à área e cosmologia. Ele foi um dos primeiros físicos a sugerir que grande parte da energia e massa se encontra no espaço vazio (agora chamado de energia negra) e recentemente promoveu um modelo do universo em que o mesmo teria surgido do nada. Ele também é conhecido por seu ativismo ateísta.

“Pode-se enviar um robô para Marte pelo mesmo custo que se faz um filme sobre enviar Bruce Willis à Marte”

Dado seus campos de questionamento distintos e complementares, Chomsky e Krauss têm coisas muito interessantes para falar sobre o estado da ciência e exploração espacial. Nossa discussão se deu em dois momentos e foi editada por questões de espaço e clareza.

MOTHERBOARD: Quais os riscos de deixar o futuro das viagens espaciais nas mãos de interesses privados?

CHOMSKY: É como eleger um ditador para o mundo e dizer que iremos obedecer a tudo que ele disser, não importa o quê. É um desdobramento terrível. O meio ambiente e os bens comuns são tudo que compartilhamos. São uma posse comunal. O espaço é mais ainda .Permitir que instituições artificiais como empresas tenham qualquer controle sobre o ambiente espacial tem consequências devastadoras. Com certeza minará esforços sérios de pesquisa.

KRAUSS: Creio que seja perigoso, apesar de improvável. Os custos de ir ao espaço são altíssimos e os riscos, também. A única forma disso se sustentar a longo prazo é com apoio governamental. A curto prazo, coisas que envolvam distâncias menores, como voltas ao redor da Terra, contarão com envolvimento de empresas privadas mas, na minha opinião, não existe modelo de negócios que motivará os custos, dificuldade e tempo envolvidos para se enviar alguém à Marte. Então é um problema se o governo desistir e cair fora dos empreendimentos espaciais. No final das contas, a exploração espacial é algo que deveria caber à sociedade decidir como conduzir.

Parece ser meio que uma faca de dois gumes. Se esperarmos muito do governo acabaremos com esforços gigantescos de militarização do espaço, como aconteceu durante a Guerra Fria.

KRAUSS: Quando falamos de exploração espacial, é necessário termos um público bem informado explicando ao congresso por que e como quer gastar dinheiro naquilo. Infelizmente, muita gente anda confusa e acha que a exploração humana do espaço é a exploração científica do mesmo. Isso não é verdade. Quando enviamos humanos ao espaço, gastamos 99,99% do orçamento nos certificando de que eles sobreviverão. Como sempre digo, pode-se enviar um robô para Marte pelo mesmo custo que se faz um filme sobre enviar Bruce Willis à Marte.

Se realmente acreditamos na democracia, elegemos representantes que tomam decisões pelas quais são responsabilizados. Pode-se ter certeza que em algum momento o público tem voz no que quer e não quer ver, mas essa voz precisa ser bem informada. Temos que decidir se é uma questão de prioridade nacional e, se for, os eleitos têm que decidir quanto será gasto naquilo. Acho que o governo busca militarizar tudo e o problema é que grande parte do dinheiro gasto na militarização do espaço é invisível. São projetos e programas secretos.

Após o programa Apollo e a queda da União Soviética nos anos 90, as pessoas não falavam tanto da militarização espacial. Mas, como Lawrence disse, a militarização não se foi. Sua influência só ficou eclipsada.

CHOMSKY: Se você reparar nas projeções da Força Aérea, verá que muito foi feito tendo em mente a militarização e o monopólio do espaço. Acontece todo o tempo.

Muita gente diz que, se não fossem pelas empresas, não existiria isso de viagem espacial. Essas mesmas pessoas dizem que a privatização do espaço é melhor que nada.

CHOMSKY: Se isso é verdade, é uma patologia social. Poderiam ter dito o mesmo a respeito dos computadores. Não foi isso que aconteceu. Eles foram desenvolvidos sob subsídio governamental por meio de contratos públicos. A maior parte do trabalho criativo e arriscado foi feita pelo governo. As empresas não queriam isso. Elas não queriam tomar para si empreitadas arriscadas. Preferiam que o serviço público fizesse. Daí poderiam pegar os resultados e vendê-los em troca de lucro. É assim que nosso sistema funciona. Se você tem um iPad desmontado e se pergunta onde suas peças foram desenvolvidas, verá que quase tudo foi criado dentro do sistema estatal. Se falamos de farmacêuticos, as chances de que a pesquisa básica tenha sido conduzida por um laboratório do governo ou uma universidade com recursos públicos são altíssimas. As empresas privadas então pegam aquilo e vendem.
No caso dos computadores é impressionante: os primeiros computadores pessoais comercializáveis surgiram quase 40 anos depois de pesquisa e desenvolvimento da tecnologia criada com recursos públicos. Uma das peculiaridades, por assim dizer, de nosso sistema de inovação e desenvolvimento é que ele é radicalmente anticapitalista de diversas formas. Por exemplo: muito do trabalho de risco e criatividade é feito com recursos públicos. Pessoas que pagaram impostos nos anos 50 e 60 talvez não soubessem, mas elas estavam criando o que no final das contas foi vendido pela Apple. E não receberam nada por isso.
Acho que isso é uma patologia social e o mesmo vale para o espaço.

O custo de entrada no espaço é altíssimo e o mesmo vale para a ciência. Qual a melhor maneira de abordarmos a questão de explorar o espaço?

CHOMSKY: Vendo toda a história do programa espacial, vemos que muita coisa interessante foi descoberta, mas de forma que vai do equivocado ao enganoso. Qual foi o sentido de colocar um homem na lua? Uma pessoa é o pior instrumento possível para se colocar no espaço: você tem que mantê-la viva, o que é complexo, envolve procedimentos de segurança. A forma correta de explorar o espaço é com robôs, o que ocorre agora. Então por que tudo começou com um ser humano? Por questões políticas.

KRAUSS: Claro que deveríamos pressionar o governo a destinar mais fundos para programas espaciais. Mas, de novo, se você me pergunta se deveríamos destinar finanças para a exploração humana do espaço, minha resposta seria que não. A exploração espacial não-tripulada, do ponto de vista científico, é muito mais relevante e útil. Se a ideia é só aventura, então é uma coisa completamente diferente. Mas da perspectiva da ciência, deveríamos investir em exploração espacial não-tripulada.

CHOMSKY: John F. Kennedy queria superar o fiasco da Baía dos Porcos e o fato de que os russos haviam saído na nossa frente, por mais que os cientistas norte-americanos soubessem que isso não era verdade. Era necessário um evento dramático, como um homem andando na lua. Não faz muito sentido ter alguém ali, a não ser para impressionar outras pessoas.
Assim que o público cansou de ver um cara qualquer tropeçar pela lua, os projetos chegaram ao fim. E aí começou a exploração espacial como empreitada científica. As coisas continuam a se desenvolver assim. Cito, mais uma vez, o desenvolvimento dos computadores. Isso foi apresentado sob a rubrica da defesa. O Pentágono não diz ‘vamos pegar seus impostos para que talvez seu neto possa ter um iPad’. O que eles dizem é que ‘estamos nos defendendo dos russos’. O que fazem mesmo é ver se conseguem criar algo inovador para a economia.

Quão grande você acha que é a influência das empresas privadas em pesquisa e desenvolvimento no ambiente universitário?

CHOMSKY: Não sei de nenhuma pesquisa séria, mas existe uma noção generalizada de que o financiamento privado tende a ser voltado para o curto prazo, com foco mais estreito e aplicação mais imediata do que financiamento governamental ou institucional. Não é de surpreender que as pessoas exagerem o papel das empresas. Quando se compra um computador, remédio ou outro bem que exige muita pesquisa científica, você percebe o que as empresas adicionaram. Nunca nos damos conta do longo período de pesquisa básica que serve como fundação para as aplicações do mercado.
A ciência climática é uma área em que os interesses privado e governamental podem ser percebidos de maneira muito poderosa. Vocês acham que as empresas vão capitalizar em cima de tecnologias sustentáveis ou lucrarão em cima de desenvolvimento não-sustentável até começarmos a nos extinguir?

CHOMSKY: Os sinais não são dos melhores. Os cientistas em geral concordam que a maior parte dos combustíveis fósseis deveria continuar no solo se quisermos ter chances de sobreviver de modo decente. As empresas do setor energético dedicam grandes recursos à extração de tudo que é possível enquanto novas áreas de extração são abertas e os governos as subsidiam em uma taxa de 5 trilhões de dólares anuais, de acordo com estudo recente do FMI. O resto depende de nós.

Tanto a Universidade Estadual do Arizona quanto o MIT tem forte relacionamento com os setores militar e de defesa. Como garantir que esses interesses não atrapalhem o trabalho acadêmico?

CHOMSKY: No caso do MIT, que recebeu uma enorme verba militar, o assunto foi estudado cuidadosamente por uma comissão de docentes e alunos chamada Pounds Commission. Fiz parte dela e os registros estão abertos ao público. As descobertas iam de acordo com a minha própria experiência em um laboratório 100% financiado pelo exército e possivelmente o centro acadêmico líder de resistência organizada à Guerra do Vietnã. O MIT administrava dois laboratórios militares. No campus, não havia qualquer indício de influência militar na pesquisa ou ensino. Em linhas gerais, a afirmação se confirma. O financiamento por parte do Departamento de Defesa tem sido direcionado ao desenvolvimento da economia a longo prazo, caso da revolução de TI. Quando os resultados são comercializáveis, eles são entregues às empresas privadas para sua aplicação e lucro. Em grande parte se trata de um sistema de subsídio público e lucro privado.

Seria a ‘liberdade acadêmica’ nas ciências uma contradição neste caso?

KRAUSS: Há a liberdade acadêmica de não aceitar o dinheiro! Na minha experiência, houve muitos casos em que as comunidades disseram que não aceitariam o dinheiro dos militares. Há um histórico na comunidade física de dizer que não aceitaremos a grana para Guerra nas Estrelas. Achamos se tratar de algo equivocado, fisicamente ridículo e não aceitaríamos qualquer dinheiro para aquilo, não importasse quanto Ronald Reagan quisesse gastar. A comunidade científica tem que ser honesta com essas coisas e dizer quando são mal concebida.

Não há dúvidas de que há gente correndo atrás de dinheiro. Não me preocupo muito porque até quem aceita dinheiro dos militares justificará porque pegou essa grana. No final eles só estão fazendo a pesquisa que queriam mesmo. Muitas vezes adequam suas propostas para atender o que acham ser os interesses do doador, mas acabam pesquisando aquilo que queriam. Agora, até certo ponto, a disponibilidade do dinheiro em certas áreas atrapalha a pesquisa. É um problema que não vejo como contornar.

Para encerrar, então: o público é desinformado, o governo está militarizando tudo e as novas empresas espaciais veem a fronteira final como uma mina de ouro. A situação não está nada boa. Como podemos engajar o público de forma a democratizar a ciência e exploração espacial mais ativamente?

CHOMSKY: Da mesma forma que se atrai a participação de um público informado em outras questões. Para quem acredita na democracia, isso é necessário.

KRAUSS: Não tem receita de bolo, mas você tenta fazer com que as pessoas se interessem ao tornar a ciência mais interessante e indo atrás delas. Você tenta fazer com que as pessoas percebam que aquilo é uma parte importante de suas vidas, mesmo que elas não pensem assim e as faz se interessar por assuntos que antes consideravam esotéricos, tediosos ou complicados. É um trabalho longo e árduo que precisa começar cedo, investindo mais em professores etc. Em partes está nas costas da academia, mas o governo também tem que tentar encorajar o apoio na contratação de professores qualificados e pagá-los com salários adequados para que escolham lecionar e não entrar para a indústria.

Tradução: Thiago “Índio” Silva