sábado, 27 de junho de 2015

O ser humano e os confins do conhecimento. Nossa viagem é eterna!

Chomsky e Krauss: Por Que Enviar Humanos ao Espaço Se Podemos Mandar Robôs?
ESCRITO POR DANIEL OBERHAUS
24 June 2015 // 09:32 PM CET







Vivemos tempos empolgantes. Pela primeira vez em meio século, vemos uma grande corrida espacial. A cada dia que passa, nossa compreensão de nós mesmos e do nosso universo possibilita enormes inovações nos campos da ciência e tecnologia, tais como computadores que aprendem a se programar e curas para males como o câncer ou AIDS.

Krauss (à esquerda) e Chomsky (à direita) debatem na Universidade Estadual do Arizona. Crédito: ASUOrigin
Em meio a tantas descobertas, analisar as questões científicas com olhar crítico pode ser complicado. Talvez a pergunta mais crucial de hoje seja “a que custo?”. Um exemplo: ir ao espaço é ótimo, claro, mas o que isso significa para o futuro da humanidade quando a exploração se sujeita aos caprichos de empresas privadas? Nossas inovações científicas são impressionantes, beleza. Mas quem as financia e quais são suas motivações?

Quando soube que o linguista e filósofo Noam Chomsky estava vindo à Phoenix, no Arizona, para participar de um debate com o físico Lawrence Krauss, pensei que não poderia deixar passar a oportunidade de discutir esses temas cada vez mais importantes com duas das figuras intelectuais mais proeminentes de nossos tempos. Ambos deram tantas contribuições substanciais às respectivas áreas de estudo que não precisariam serem apresentados, mas, para quem perdeu alguns dos mais emocionantes desdobramentos da física teórica e da política nas últimas décadas, dou uma forcinha.
Desde que começou a publicar seus artigos no começo dos anos 50, Chomsky, professor emérito do MIT, escreveu mais de 100 livros sobre uma variedade impressionante de temas, de linguística à ciência cognitiva, a Guera do Vietnã e os méritos do anarcossindicalismo. Ele também foi eleito como maior intelectual do mundo.

Já Krauss é físico teórico da Universidade Estadual do Arizona e escreve sobre tópicos ligados à área e cosmologia. Ele foi um dos primeiros físicos a sugerir que grande parte da energia e massa se encontra no espaço vazio (agora chamado de energia negra) e recentemente promoveu um modelo do universo em que o mesmo teria surgido do nada. Ele também é conhecido por seu ativismo ateísta.

“Pode-se enviar um robô para Marte pelo mesmo custo que se faz um filme sobre enviar Bruce Willis à Marte”

Dado seus campos de questionamento distintos e complementares, Chomsky e Krauss têm coisas muito interessantes para falar sobre o estado da ciência e exploração espacial. Nossa discussão se deu em dois momentos e foi editada por questões de espaço e clareza.

MOTHERBOARD: Quais os riscos de deixar o futuro das viagens espaciais nas mãos de interesses privados?

CHOMSKY: É como eleger um ditador para o mundo e dizer que iremos obedecer a tudo que ele disser, não importa o quê. É um desdobramento terrível. O meio ambiente e os bens comuns são tudo que compartilhamos. São uma posse comunal. O espaço é mais ainda .Permitir que instituições artificiais como empresas tenham qualquer controle sobre o ambiente espacial tem consequências devastadoras. Com certeza minará esforços sérios de pesquisa.

KRAUSS: Creio que seja perigoso, apesar de improvável. Os custos de ir ao espaço são altíssimos e os riscos, também. A única forma disso se sustentar a longo prazo é com apoio governamental. A curto prazo, coisas que envolvam distâncias menores, como voltas ao redor da Terra, contarão com envolvimento de empresas privadas mas, na minha opinião, não existe modelo de negócios que motivará os custos, dificuldade e tempo envolvidos para se enviar alguém à Marte. Então é um problema se o governo desistir e cair fora dos empreendimentos espaciais. No final das contas, a exploração espacial é algo que deveria caber à sociedade decidir como conduzir.

Parece ser meio que uma faca de dois gumes. Se esperarmos muito do governo acabaremos com esforços gigantescos de militarização do espaço, como aconteceu durante a Guerra Fria.

KRAUSS: Quando falamos de exploração espacial, é necessário termos um público bem informado explicando ao congresso por que e como quer gastar dinheiro naquilo. Infelizmente, muita gente anda confusa e acha que a exploração humana do espaço é a exploração científica do mesmo. Isso não é verdade. Quando enviamos humanos ao espaço, gastamos 99,99% do orçamento nos certificando de que eles sobreviverão. Como sempre digo, pode-se enviar um robô para Marte pelo mesmo custo que se faz um filme sobre enviar Bruce Willis à Marte.

Se realmente acreditamos na democracia, elegemos representantes que tomam decisões pelas quais são responsabilizados. Pode-se ter certeza que em algum momento o público tem voz no que quer e não quer ver, mas essa voz precisa ser bem informada. Temos que decidir se é uma questão de prioridade nacional e, se for, os eleitos têm que decidir quanto será gasto naquilo. Acho que o governo busca militarizar tudo e o problema é que grande parte do dinheiro gasto na militarização do espaço é invisível. São projetos e programas secretos.

Após o programa Apollo e a queda da União Soviética nos anos 90, as pessoas não falavam tanto da militarização espacial. Mas, como Lawrence disse, a militarização não se foi. Sua influência só ficou eclipsada.

CHOMSKY: Se você reparar nas projeções da Força Aérea, verá que muito foi feito tendo em mente a militarização e o monopólio do espaço. Acontece todo o tempo.

Muita gente diz que, se não fossem pelas empresas, não existiria isso de viagem espacial. Essas mesmas pessoas dizem que a privatização do espaço é melhor que nada.

CHOMSKY: Se isso é verdade, é uma patologia social. Poderiam ter dito o mesmo a respeito dos computadores. Não foi isso que aconteceu. Eles foram desenvolvidos sob subsídio governamental por meio de contratos públicos. A maior parte do trabalho criativo e arriscado foi feita pelo governo. As empresas não queriam isso. Elas não queriam tomar para si empreitadas arriscadas. Preferiam que o serviço público fizesse. Daí poderiam pegar os resultados e vendê-los em troca de lucro. É assim que nosso sistema funciona. Se você tem um iPad desmontado e se pergunta onde suas peças foram desenvolvidas, verá que quase tudo foi criado dentro do sistema estatal. Se falamos de farmacêuticos, as chances de que a pesquisa básica tenha sido conduzida por um laboratório do governo ou uma universidade com recursos públicos são altíssimas. As empresas privadas então pegam aquilo e vendem.
No caso dos computadores é impressionante: os primeiros computadores pessoais comercializáveis surgiram quase 40 anos depois de pesquisa e desenvolvimento da tecnologia criada com recursos públicos. Uma das peculiaridades, por assim dizer, de nosso sistema de inovação e desenvolvimento é que ele é radicalmente anticapitalista de diversas formas. Por exemplo: muito do trabalho de risco e criatividade é feito com recursos públicos. Pessoas que pagaram impostos nos anos 50 e 60 talvez não soubessem, mas elas estavam criando o que no final das contas foi vendido pela Apple. E não receberam nada por isso.
Acho que isso é uma patologia social e o mesmo vale para o espaço.

O custo de entrada no espaço é altíssimo e o mesmo vale para a ciência. Qual a melhor maneira de abordarmos a questão de explorar o espaço?

CHOMSKY: Vendo toda a história do programa espacial, vemos que muita coisa interessante foi descoberta, mas de forma que vai do equivocado ao enganoso. Qual foi o sentido de colocar um homem na lua? Uma pessoa é o pior instrumento possível para se colocar no espaço: você tem que mantê-la viva, o que é complexo, envolve procedimentos de segurança. A forma correta de explorar o espaço é com robôs, o que ocorre agora. Então por que tudo começou com um ser humano? Por questões políticas.

KRAUSS: Claro que deveríamos pressionar o governo a destinar mais fundos para programas espaciais. Mas, de novo, se você me pergunta se deveríamos destinar finanças para a exploração humana do espaço, minha resposta seria que não. A exploração espacial não-tripulada, do ponto de vista científico, é muito mais relevante e útil. Se a ideia é só aventura, então é uma coisa completamente diferente. Mas da perspectiva da ciência, deveríamos investir em exploração espacial não-tripulada.

CHOMSKY: John F. Kennedy queria superar o fiasco da Baía dos Porcos e o fato de que os russos haviam saído na nossa frente, por mais que os cientistas norte-americanos soubessem que isso não era verdade. Era necessário um evento dramático, como um homem andando na lua. Não faz muito sentido ter alguém ali, a não ser para impressionar outras pessoas.
Assim que o público cansou de ver um cara qualquer tropeçar pela lua, os projetos chegaram ao fim. E aí começou a exploração espacial como empreitada científica. As coisas continuam a se desenvolver assim. Cito, mais uma vez, o desenvolvimento dos computadores. Isso foi apresentado sob a rubrica da defesa. O Pentágono não diz ‘vamos pegar seus impostos para que talvez seu neto possa ter um iPad’. O que eles dizem é que ‘estamos nos defendendo dos russos’. O que fazem mesmo é ver se conseguem criar algo inovador para a economia.

Quão grande você acha que é a influência das empresas privadas em pesquisa e desenvolvimento no ambiente universitário?

CHOMSKY: Não sei de nenhuma pesquisa séria, mas existe uma noção generalizada de que o financiamento privado tende a ser voltado para o curto prazo, com foco mais estreito e aplicação mais imediata do que financiamento governamental ou institucional. Não é de surpreender que as pessoas exagerem o papel das empresas. Quando se compra um computador, remédio ou outro bem que exige muita pesquisa científica, você percebe o que as empresas adicionaram. Nunca nos damos conta do longo período de pesquisa básica que serve como fundação para as aplicações do mercado.
A ciência climática é uma área em que os interesses privado e governamental podem ser percebidos de maneira muito poderosa. Vocês acham que as empresas vão capitalizar em cima de tecnologias sustentáveis ou lucrarão em cima de desenvolvimento não-sustentável até começarmos a nos extinguir?

CHOMSKY: Os sinais não são dos melhores. Os cientistas em geral concordam que a maior parte dos combustíveis fósseis deveria continuar no solo se quisermos ter chances de sobreviver de modo decente. As empresas do setor energético dedicam grandes recursos à extração de tudo que é possível enquanto novas áreas de extração são abertas e os governos as subsidiam em uma taxa de 5 trilhões de dólares anuais, de acordo com estudo recente do FMI. O resto depende de nós.

Tanto a Universidade Estadual do Arizona quanto o MIT tem forte relacionamento com os setores militar e de defesa. Como garantir que esses interesses não atrapalhem o trabalho acadêmico?

CHOMSKY: No caso do MIT, que recebeu uma enorme verba militar, o assunto foi estudado cuidadosamente por uma comissão de docentes e alunos chamada Pounds Commission. Fiz parte dela e os registros estão abertos ao público. As descobertas iam de acordo com a minha própria experiência em um laboratório 100% financiado pelo exército e possivelmente o centro acadêmico líder de resistência organizada à Guerra do Vietnã. O MIT administrava dois laboratórios militares. No campus, não havia qualquer indício de influência militar na pesquisa ou ensino. Em linhas gerais, a afirmação se confirma. O financiamento por parte do Departamento de Defesa tem sido direcionado ao desenvolvimento da economia a longo prazo, caso da revolução de TI. Quando os resultados são comercializáveis, eles são entregues às empresas privadas para sua aplicação e lucro. Em grande parte se trata de um sistema de subsídio público e lucro privado.

Seria a ‘liberdade acadêmica’ nas ciências uma contradição neste caso?

KRAUSS: Há a liberdade acadêmica de não aceitar o dinheiro! Na minha experiência, houve muitos casos em que as comunidades disseram que não aceitariam o dinheiro dos militares. Há um histórico na comunidade física de dizer que não aceitaremos a grana para Guerra nas Estrelas. Achamos se tratar de algo equivocado, fisicamente ridículo e não aceitaríamos qualquer dinheiro para aquilo, não importasse quanto Ronald Reagan quisesse gastar. A comunidade científica tem que ser honesta com essas coisas e dizer quando são mal concebida.

Não há dúvidas de que há gente correndo atrás de dinheiro. Não me preocupo muito porque até quem aceita dinheiro dos militares justificará porque pegou essa grana. No final eles só estão fazendo a pesquisa que queriam mesmo. Muitas vezes adequam suas propostas para atender o que acham ser os interesses do doador, mas acabam pesquisando aquilo que queriam. Agora, até certo ponto, a disponibilidade do dinheiro em certas áreas atrapalha a pesquisa. É um problema que não vejo como contornar.

Para encerrar, então: o público é desinformado, o governo está militarizando tudo e as novas empresas espaciais veem a fronteira final como uma mina de ouro. A situação não está nada boa. Como podemos engajar o público de forma a democratizar a ciência e exploração espacial mais ativamente?

CHOMSKY: Da mesma forma que se atrai a participação de um público informado em outras questões. Para quem acredita na democracia, isso é necessário.

KRAUSS: Não tem receita de bolo, mas você tenta fazer com que as pessoas se interessem ao tornar a ciência mais interessante e indo atrás delas. Você tenta fazer com que as pessoas percebam que aquilo é uma parte importante de suas vidas, mesmo que elas não pensem assim e as faz se interessar por assuntos que antes consideravam esotéricos, tediosos ou complicados. É um trabalho longo e árduo que precisa começar cedo, investindo mais em professores etc. Em partes está nas costas da academia, mas o governo também tem que tentar encorajar o apoio na contratação de professores qualificados e pagá-los com salários adequados para que escolham lecionar e não entrar para a indústria.

Tradução: Thiago “Índio” Silva

sábado, 23 de maio de 2015

Bem sucedido na Índia, porque ainda não funciona no Brasil? Yunus mostra possibilidades reais contra a pobreza e a miseria.

O Banqueiro dos Pobres Crê que a Ficção Científica Pode Tornar o Mundo Melhor

ESCRITO POR FELIPE MAIA
7 May 2015 // 02:00 PM CET

Os políticos e a elite brasileira precisam conhecer e referenciar este ser humano, Sr. Muhammad Yunus. E sua prática de confiança, solidariedade e respeito a capacidade humana de se superar. Doar casas e manter os pobres na servidão não resolvem nada, apenas criam mais violência e desespero. O difícil nesta campanha a prefeito em Parauapebas serão as promessas. Estes políticos safados não terão plateia mais para propostas mirabolantes. Estamos sem emprego, sem dinheiro e aturdidos.


Entre todas as ficções impossíveis, a eliminação completa da pobreza é a que mais se aproxima da realidade para o senhor Muhammad Yunus. “Estamos tão ocupados fazendo dinheiro que não prestamos atenção no mundo. Precisamos redefinir tudo, levar a pobreza ao nível zero”, ele me disse durante uma conversa em São Paulo, na última quinta-feira. Vencedor do prêmio Nobel da Paz de 2006, Yunus chegou ao Brasil derrubando alicerces fundamentais ao capitalismo. Para o economista, desemprego e sistema financeiro fazem menos sentido do que teletransporte, paixões por robôs ou abduções extraterrenas.

Aos 75 anos, Yunus é pai do microcrédito, empréstimo de módicas quantias de dinheiro a pessoas em situações de extrema pobreza. De um pequeno vilarejo em Bangladesh, o método cresceu, se espalhou e atuou na redução da pobreza no país do sudeste asiático — uma queda de 50% entre 1990 e 2010, segundo a ONU. Formalizado como Grameen Bank, o sistema deu origem a projetos como o negócio social, um financiamento para iniciativas voltadas a problemas comunitários. “Na caridade, o dinheiro entra e não volta. No negócio social, o dinheiro vai e volta”, contou.

Com uma fé quase cega, o economista enxerga a tecnologia como panaceia instrumental. Celulares podem ser aliados importantes na manutenção da saúde pública e plataformas como o Google e Facebook podem ser reinventadas para fins menos preocupados com o lucro. "É como um carro. Ele não vai aonde quer. O motorista é quem faz isso. Se ele quer subir uma montanha, o carro sobe; se ele quer ir pelo mar, o carro vai. O motorista decide aonde ir", explica. “A concentração de renda se tornará extremamente maior se a tecnologia continuar a servir a ricos e poderosos.”

Segundo Yunus, precisamos reaprender a usar a tecnologia para combater a pobreza. E o melhor meio para transformar nosso conhecimento é aprender as lições contidas em ficções científicas do tipo Star Trek e Star Wars. O economista crê que o gênero é fundamental para formar o que pensamos do futuro modelo socio-econômico global. Para ele, histórias fantásticas mostram quais caminhos poderemos seguir e, no caso de tramas distópicas como Blade Runner e Distrito 9, o caos causado pelos maus hábitos tecnológicos nos serve de aviso. “Esses filmes fazem um bom trabalho ao nos alertar o que pode acontecer”, disse. “A ficção científica é sempre seguida pela realidade.”

O que Yunus propõe já foi batizado pelo próprio: ficção social. Trata-se de uma projeção imaginária do futuro para que possamos encontrar o melhor jeito de arrumar o capitalismo, um sistema que, segundo ele, não está funcionando. Durante esse processo, diz Yunus, a solução passa pelo microcrédito e pelo negócio social. Programas de bem estar social, afirma, são apenas parte disso. “Não acho que o negócio social tira a responsabilidade do governo. Ele torna o governo mais ciente do problema e da solução.” Otimista mesmo após horas de viagem e anos de peregrinação pelo mundo, o tiozinho de 75 anos arranjou tempo para comentar sobre o Bolsa Família, Google, concentração de renda, ficção científica e, sem tirar o permanente sorriso do rosto, até rebateu críticos das suas propostas.

Motherboard: Quando surgiu a ideia do Grameen Bank e do microcrédito?
Muhammad Yunus: Essas ideias surgiram quando voltei para Bangladesh no fim do meu PhD nos Estados Unidos. Bangladesh tinha se tornado independente em 1971 e decidi voltar. Retornei em 1972. Comecei a ensinar em uma das universidades lá e havia pobreza extrema ao redor. Pensei em ajudar essas pessoas a sair daquela situação. Tudo isso acontecia na porta da universidade, então todo dia eu ia até essas pessoas para conversar com elas e descobrir se eu poderia fazer a vida delas um pouco melhor ao menos por um dia. Fiz várias coisas pequenas. Foi aí que percebi que havia agiotas nos vilarejos. Eles exploravam as pessoas pobres. Pensei: posso resolver esse problema, vou emprestar eu mesmo dinheiro a essas pessoas e elas não terão de recorrer a agiotas. Comecei a fazer esses empréstimos em 1976. Isso cresceu e criei um banco a partir daí, o Grameen Bank. Em 1983 nos tornamos um banco formal.

Por que a maioria dos seus clientes é do sexo feminino?
Sim, a maioria das pessoas que fazem empréstimo conosco é mulher. Temos 8,5 milhões de clientes e 97% deles são mulheres, o que equivale a dizer que, virtualmente, todos os nossos clientes são mulheres. Decidimos no começo, em 1976, que ao menos metade das pessoas que realizavam empréstimos deveriam ser mulheres. Os bancos tradicionais de Bangladesh não emprestavam dinheiro para mulheres. Então mudamos isso: no meu programa, eu disse na época, precisamos ter certeza de que as mulheres farão empréstimos. Demorou seis anos para alcançarmos uma taxa de 50% e, então, observamos que o dinheiro que ia para a família por meio da mulher trazia muito mais benefícios do que o dinheiro que ia para a família por meio do homem. Ao perceber isso, resolvemos deixar de lado a taxa de metade-metade para focar em mulheres. Concentramo-nos em mulheres e gradualmente chegamos a 97% de mulheres na nossa base de clientes.

"A crise foi construída dentro do sistema capitalista. Precisamos redefini-lo por meio da tecnologia."

Por que você diz que ainda estamos em uma crise?
A crise foi construída dentro do sistema capitalista. Não é algo que aconteceu repentinamente, é algo que está inserido. Se você voltar à situação normal depois dessa crise, digo que estaremos esperando a próxima crise. Estaremos sempre rumando para uma crise maior. É por isso que digo que precisamos redefinir o sistema. O sistema tem um fluxo pré-estabelecido, que é criar muita desigualdade de renda. Toda a riqueza está concentrada no topo. Está na mão de poucas pessoas. As pessoas que estão em baixo não tem nada. Um número enorme de pessoas na base não tem nada a ver com a riqueza.

Metade da população do mundo tem apenas 1% da riqueza do mundo, 99% da riqueza do mundo pertence às pessoas que estão no topo e 85 pessoas no mundo tem metade da riqueza do planeta. Essa economia criou pobreza, desigualdade de renda, problemas de saúde pública, favelas, tensões e conflitos. Precisamos redefinir o sistema para que ele funcione ao contrário: em vez de subir, a riqueza tem de descer para que as pessoas possam, enfim, ser independentes e para que a desigualdade seja cada vez menor.

Muitos críticos afirmam que o negócio social tira a responsabilidade do governo ao oferecer solução para alguns problemas. O que você acha disso?
Não acho que o negócio social tira a responsabilidade do governo. Ele torna o governo mais ciente do problema e da solução. O governo sempre tenta resolver os problemas dando dinheiro, fazendo caridade. Aqui, não. Aqui o dinheiro volta. Seu dinheiro tem muito mais poder de uso. Você oferece novas ideias e oportunidades. Muitos governos, na verdade, nos convidaram para realizar negócio social em seus países. Nunca disseram para nos afastarmos. Não acho que haja um conflito aí. Temos nossa responsabilidade em ajudar o governo, ajudar a encontrar soluções e ideias criativas. Se todos os cidadãos participassem da busca por soluções, encontraríamos soluções mais poderosas que o governo. O governo tem limitações. Ele não é todo poderoso na tomada de ações. O que o governo não pode fazer, cidadãos podem fazer. Governo e cidadãos tem de combinar responsabilidades. Não é responsabilidade de ninguém sozinho. Esse é o ponto que gosto de frisar.

O que você acha do Bolsa Família aqui no Brasil?
Aceito o princípio de que a sociedade precisa ajudar as pessoas mais fracas. Não se pode fugir disso. Em nome de pessoas em situações difíceis, o governo tem de agir para que elas tenham ao menos uma vida razoável, com dignidade, para que possam cuidar delas mesmas. É pra isso que existe um programa social, então apoio esse tipo de programa. Mas isso é só parte da solução. A próxima parte é encontrar uma solução completa. Primeiramente, se você está na miséria, eu ajudo: dou comida, abrigo, educação, tudo isso. Depois tenho a responsabilidade de ajudá-lo a sair desse programa para que você possa cuidar de você mesmo, dar educação a seus filhos e tudo o mais. Isso é o grande desafio humano. A dura pena de outra pessoa não é solução para a humanidade. Os seres humanos são criadores. Eles não devem ser colocados em um lugar onde não podem usar a criatividade. Programas sociais botam pessoas nessa condição de não usar a criatividade porque alguém provem a comida e o abrigo, então você apenas relaxa. Isso não é uma vida humana. O ideal é que a ajuda dignifique uma vida, que torne um ser humano completo: um ser humano produtivo e contribuidor. Isso preciso ser colocado em cena.

"Descrevo essa geração atual como a mais poderosa da história. A questão é: se você tem tanto poder, o que você fará com isso?"

Esse é o futuro? Precisamos redefinir o capitalismo?
Precisamos. Senão esse sistema não vai funcionar. Esse sistema tem gerado poluição e muitos problemas ambientais para o planeta. O mundo vai explodir porque não cuidamos dele. Estamos tão ocupados fazendo dinheiro que não prestamos atenção nele. Precisamos redefinir tudo, levar a pobreza ao nível zero. Nenhuma pessoa do mundo deve ser pobre. E o próximo nível é reduzir o desemprego a zero. Nenhuma pessoa deve estar desempregada no mundo inteiro. Não há nada de errado com as pessoas. Foi o sistema quem criou esse desemprego desnecessário e artificial. E, por fim, devemos zerar as emissões de carbono. Assim teremos um equilíbrio do planeta. Esses zeros são todos alcançáveis e podemos trabalhar nele para fazer acontecer.

E o que podemos fazer para tornar o mundo mais equilibrado?
O mundo pode ser modificado com a tecnologia que temos hoje. Tem um novo mundo a caminho. Se você voltasse vinte anos atrás para tentar prever o que aconteceria em 2015, você não conseguiria. Mas aconteceu! Se você tentar prever o que acontecerá em 2035, você não conseguirá. Tem tantas mudanças relevantes no mundo que não podemos imaginar. As gerações mais jovens é que farão essas mudanças. As pessoas jovens tem toda a tecnologia nas mãos. Elas são muito poderosas. Minha geração não tinha esse poder. Descrevo essa geração atual como a geração mais poderosa na história da humanidade. A questão é: se você tem tanto poder, o que você fará com isso? Se você não decidir para que será destinado esse poder, ele será desperdiçado. Essa geração precisa ser chacoalhada. Acordem! Vocês tem o poder! Vocês tem a lâmpada do Aladdin na mão. Vocês podem fazer o que quiserem.

A primeira coisa que os jovens precisam fazer é imaginar o que querem no mundo daqui a vinte anos. Vocês, jovens, tem de imaginar o que querem fazer nos próximos vinte anos. É o horário nobre da vida. Definam, pensem, listem: é isso que queremos, o que gostaríamos de ter, o que sonhamos. Não o que você sabem fazer, mas o que vocês sonham em fazer. Imaginem! Se vocês imaginarem, vai acontecer. Se vocês não imaginarem, não vai acontecer. A imaginação é o poder para vocês. Vocês tem o poder, coloquem imaginação nisso e façam essa imaginação se tornar realidade. Estamos nos movendo tão rápido que o impossível está se tornando possível muito rapidamente. Coisas que não aconteceriam antes, acontecem hoje. Vocês não precisam esperar o governo para fazer algo. Não espere que eles façam, não espere que pessoas mais velhas façam. A geração passada não tinha esse poder, então, se você olhar para ela, ela não poderá ajudar. Aí todas as mudanças vão acontecer. A estrutura econômica sobre qual falamos: se ela não funcionar, vamos jogá-la fora. Vamos criar uma nova.

Em alguns dos elementos que estou propondo, o negócio social aparece. Na atual estrutura, os seres humanos tem sido interpretados de forma incorreta. Eles são interpretados como seres egoístas, fazedores de dinheiro, robôs. Seres humanos não são egoístas, fazedores de dinheiro ou robôs. Seres humanos são grandes entidades. Eles podem fazer o que quiserem, mas eles precisam descobrir a parte menos egoísta deles e trazê-la à tona. Você quer descobrir sua parte menos egoísta? Crie um negócio social para resolver um problema que vemos no planeta. E aí vamos fazer acontecer. Somos criativos o suficiente para fazer isso. Não se trata de um problema de recursos. A imaginação é 80% do trabalho. Se você tiver isso, o restante pode ser resolvido muito facilmente. Essa é a direção para criar um novo mundo. E não podemos esperar por séculos. Não estamos falando disso. Vocês tem um futuro possível durante sua vida. É quando vocês mudarão tudo isso.

"Temos de usar a tecnologia para fazer a coisa certa. Assim não sentiremos vergonha do mundo que criamos."

Qual o papel que a tecnologia tem na redefinição de um novo modelo capitalista?
A tecnologia está se movendo muito rapidamente, mas ela não nos conta como fazer as coisas. Temos a tecnologia, mas não sabemos como usá-la.

Não sabemos usar um celular, é isso?
Isso, o celular é um bom exemplo. Você tem um celular, é uma tecnologia. Você imaginaria que esse celular poderia cuidar de todos os problemas de saúde do mundo? Não, mas isso pode ser feito. Isso é imaginação. Todos os serviços de saúde podem ser trazidos para um celular. É possível. Você imagina isso e começa a trabalhar. Você precisa criar aplicativos para fazer isso acontecer. E se você fizer isso em um negócio social, você fará isso mais rapidamente. Você verá as coisas mais claras assim do que numa situação de lucro. Em uma situação de lucro, você está cego. Só os cifrões vem à vista. Remova os cifrões dos seus olhos e de repente você verá outro mundo. É um mundo fascinante! Vocês tem habilidade e farão acontecer. A tecnologia é uma ferramenta. Quem a controla é quem faz acontecer. A tecnologia é como um carro. Ele não vai aonde quer. O motorista é quem faz isso. Se ele quer subir uma montanha, o carro sobe; se ele quer ir pelo mar, o carro vai. O motorista decide aonde ir. A tecnologia é construída, reformada, concebida, mas você é que decide para que serve. Você que dará determinada direção e deve estar certo quanto a isso. Senão, ela tomará a direção errada. A concentração de renda se tornará extremamente maior se a tecnologia continuar a servir os ricos e poderosos. Isso não ajuda. Temos de usar a tecnologia para fazer a coisa certa. Assim criaremos um novo mundo para nós. Assim estaremos orgulhosos desse mundo. Não sentiremos vergonha do mundo que criamos.

Muitas companhias gigantes, como Google e Microsoft, detêm o poder de tecnologias e plataformas que usamos regularmente. Como trazer esse poder para as pessoas? Temos de evitar essas tecnologias?

Não, não é preciso evitá-las. Lembre-se: o Google não veio do céu! Era uma pessoa como você. Ele não tinha tudo. Foi criado por um jovem. Ele criou alguma coisa tecnológica e queria fazer dinheiro com aquilo. Se você quer fazer um negócio social, você vai criá-lo de uma maneira totalmente diferente para resolver os problemas do mundo sem ter todos os cifrões nos olhos. É como outras tecnologias, é como o Facebook. Ele era um jovem na faculdade que criou algo. Qualquer um pode criar um Google. Qualquer um pode criar um Facebook. Qualquer um pode criar qualquer coisa. A questão é o que você quer dessa tecnologia. Não foram super-heróis que criaram isso. Eles são como outros alunos de uma faculdade. Estudantes que desistiram dos cursos, aliás. Isso é um ótimo sinal. Até mesmo aqueles que desistem dos cursos podem fazer isso, podem mudar o mundo. Isso é uma mensagem: vocês têm toda a capacidade. Mas esteja certo sobre o que você quer da tecnologia. Você quer fazer dinheiro, você fará muito dinheiro. Você quer que sua empresa seja gigante, ela será gigante. Se você quer fazer isso, você fará, mas você vai perder a chance de mudar o mundo para todas as pessoas.

Ouvi dizer que você gostaria de ver uma obra de “ficção social”. Pode me explicar o que é isso?
Tem um negócio chamado ficção científica. Tem o Star Wars, o Star Trek, você vai de um planeta a outro…

Você gosta de ficção científica?
Sim! Todo mundo ama! São coisas que não acontecem, mas você imagina que elas podem acontecer. Aí você faz uma ficção. Você vai a outra galáxia, você transporta uma pessoa daqui a outro planeta em alguns segundos… Essas coisas são da imaginação. O que acontece na realidade? A realidade segue a ficção científica. A tecnologia segue a ficção científica. A ficção científica queria ir à Lua e as pessoas não tinham nem voado naquela época. Eles queriam ir à Lua, a ficção foi criada e, um tempo depois, a tecnologia para isso foi criada. A ficção científica é sempre seguida pela realidade.
O que eu digo é: infelizmente, nós não estamos criando ficções sociais. Vamos criar um novo mundo pra daqui a vinte anos. Haverá as pessoas, as interações, as famílias, os negócios. Um grande universo de ideias. As pessoas verão isso e pensarão “isso é bom!” e repentinamente a ficção vira realidade. É isso porque eu dou ênfase à imaginação. E à criação de ficções sociais. Criar cidades de ficção social. O Star Trek não acabou. Ele continua e continua. Trinta, quarenta, cinquenta anos a partir de agora, essa ficção continuaria. Seria um mundo maravilhoso. Os personagens viveriam felizes, eles seriam pessoas boas, confiáveis, estranhas, enfim, seriam como nós. Mas estariam numa sociedade completamente nova. Isso é imaginação. Por isso eu digo: vamos criar ficções sociais, para que, no mundo real, façamos acontecer.

Mas alguns filmes de ficção científica mostram um mundo completamente dominado por empresas, como o Blade Runner. Você não acredita que isso seja possível?
Não. Esses filmes fazem um bom trabalho ao nos alertar o que pode acontecer para que não deixemos que isso aconteça. Esse é o propósito. “Meu Deus, essas empresas podem comandar o mundo inteiro! Poucas pessoas podem comandar o mundo inteiro! Como parar isso?” É isso o que a ficção científica faz. Os autores de ficção científica não querem esse mundo. Eles nos protegem disso.





domingo, 26 de abril de 2015

Transformações radicais na produção industrial avançada. Com a internet industrial.

Bem-Vindos à Quarta Revolução Industrial
ESCRITO POR DANIEL OBERHAUS
April 17, 2015 // 11:00 AM CET

Compreendemos e partilhamos que em muito breve será assim. Em verdade já pé assim em muitos lugares e situações. Preocupante perceber que nosso Brasil levará ainda muito tempo para querer ser assim. Educação, escola, loucura, liberdade e recursos. Intercambio e recepção ao novo. Itens que faltam a esta cultura do sempre, perpetuada por nossa maioria. Como vamos viver este amanhã? Fornecendo minérios e alimentos apenas?









São sete horas da manhã do dia 13 de abril de 2025. Seu relógio te desperta de uma noite sem sonhos e você sai da cama na mesma hora em que sua casa acorda. A luz do banheiro se acende e o chuveiro começa a esquentar a água. Depois do banho, você veste uma camiseta feita sob medida. Você checa seu celular e descobre que a bateria está prestes a acabar. Uma janelinha na tela te informa que não há com o que se preocupar — há uma bateria substituta à caminho. Você ouve seu carro se ligando na garagem, pronto para te levar para a fábrica que você gerencia, onde, de acordo com seu celular, uma das máquinas parou de funcionar. Ir até o seu trabalho se tornou um fenômeno cada vez mais raro — na maior parte do tempo, a fábrica funciona de forma independente.

“Que saco", você reclama enquanto o carro sai da sua garagem. “Essas geringonças só dão trabalho."
Bem-vindo à quarta revolução industrial, onde todos os objetos do seu dia a dia são feitos sob medida e conversam entre si para resolver seus problemas.

É provável que a expressão "revolução industrial" invoque memórias distantes de tediosas aulas de história do ensino médio. Dois séculos se passaram desde que o motor à vapor inaugurou a transição para a produção em massa, e desde então passamos por duas outras revoluções: uma no final do século 19, baseada na energia elétrica e na divisão do trabalho, e uma no final do século 20, causada pela ascensão da tecnologia de informação.

Três anos atrás, os alemães previram uma quarta revolução, que promete mudar radicalmente a forma como trabalhamos — e que ainda por cima irá fazer com que todos seus pertences girem em torno do seu umbigo.


MUDANDO TUDO DE NOVO
A quarta revolução industrial, mais conhecida como "Indústria 4.0", foi nomeada assim por um grupo liderado por empresários, políticos e acadêmicos, que a definiram como uma forma de aumentar a competitividade da indústria alemã por meio da inserção de "sistemas ciber-físicos", ou CPS, aos processos industriais.

CPS é um termo genérico para todo tipo de integração entre máquinas inteligentes e mão de obra humana. Os donos de fábricas não estão apenas reinventando a linha de produção, mas sim criando uma rede de máquinas que produz mais com menos erros; e tem a capacidade de alterar seus padrões de produção de acordo com dados externos, mantendo um alto padrão de eficiência.

Em outras palavras, a Indústria 4.0 é o equivalente industrial da Internet das Coisas, a ideia de conectar toda sorte de objetos, de termostatos a torradeiras, à internet.

Esse seria um "novo conceito em produção", de acordo com o um relatório publicado em 2013 pelo Grupo de Pesquisa da Industria 4.0, um conglomerado de industriais, especialistas em inteligência artificial, economistas e acadêmicos.

O governo alemão apoiou a ideia, anunciando que o país iria adotar uma "Estratégia De Tecnologia de Ponta" para se preparar para o futuro.

Essa nova abordagem não está ganhando popularidade apenas na Alemanha; muitos países estão voltando seus olhos para a iniciativa. Os Estados Unidos, por exemplo, não demorou para seguir os passos da Alemanha e criou uma organização sem fins lucrativos voltada para o tema, o Consórcio de Internet Industrial, em 2014. A organização conta com gigantes como a General Electric, a AT&T, a IBM, e a Intel.

Muitas fábricas gastam enormes quantidades de energia durante as pausas na produção, que ocorrem em fins-de-semana e feriados, algo que poderia ser evitado com o advento das fábricas inteligentes

Embora a Indústria 4.0 tenha se tornado um tema de debate na Alemanha, o significado exato do termo ainda é um tanto confuso.

“Embora a Indústria 4.0 seja um dos temas mais discutidos atualmente, eu não consegui explicar seu significado para meu filho", disse um coordenador de produção da Audi citado em um relatório lançado no ano passado.


E O QUE SERIA A INDÚSTRIA 4.0?
Um dos aspectos mais tangíveis da quarta revolução industrial é a ideia de um "design voltado para o consumidor". Isso significa que os consumidores irão usar as fábricas para criar seus próprios produtos, e que as empresas irão fabricar produtos personalizados para cada consumidor.

O potencial desse novo modelo de produção é imenso. Por exemplo, a comunicação entre os produtos inteligentes conectados à Internet das Coisas e as máquinas que os produzem — que utilizam o que a General Electric chama da "Internet Industrial" — significa que os objetos poderão monitorar seu próprio uso e tempo de funcionamento.

Caso seu celular percebe que irá "morrer" em breve, ele pode entrar em contato com a fábrica, que poderá alterar seu ritmo de produção segundo os dados enviados pelos produtos lá produzidos. Quando seu celular bater as botas, já haverá outro esperando por você, o que significa que os dias das encomendas pela internet estão contados.

Além disso, à medida que esse processo se tornar mais sofisticado e integrado, seu celular irá ser entregue com a exata formatação do seu falecido celular.

Esse processo não se limita aos celulares e outros eletrônicos mais sofisticados. Tudo, de roupas sob medida à shampoos e sabonetes personalizados, estará disponível para os consumidores, sem o custo adicional que costuma acompanhar esses produtos especiais. Os produtos irão ser realmente personalizados — nada de escolher uma das cores pré-determinadas para seu celular e falar que o produto foi feito especialmente para você.

As máquinas de várias empresas, como BMW e a Bayer, são produzidas por linhas de produção quase que inteiramente automatizadas

Além do mais, a crescente integração entre fábricas inteligentes e infraestruturas industriais poderia resultar em uma grande redução do gasto energético. Como o grupo de pesquisa da Indústria 4.0 afirma em um dos seus relatórios, muitas fábricas gastam enormes quantidades de energia durante as pausas na produção, que ocorrem em fins-de-semana e feriados, algo que poderia ser evitado com o advento das fábricas inteligentes.

De acordo com os defensores desse novo método de produção integrada, a Indústria 4.0 pode mudar a forma como vemos o trabalho. Visto que uma máquina pode executar tarefas repetitivas com muito mais eficiência do que um trabalhador humano, essas funções estão fadadas à automatização. Mas ao invés de tirar o emprego desses trabalhadores, isso supostamente irá permitir que eles executem trabalhos mais criativos, salvando-os desses serviços repetitivos. Além disso, conforme os sistemas físicos são digitalizados, os trabalhadores irão ter que passar menos tempo em seus locais de trabalho — no futuro, um gerente poderá supervisionar sua fábrica pela internet.

OS NOVOS GIGANTES DA INDÚSTRIA? OS MESMOS GIGANTES DA INDÚSTRIA
Aqueles que mais se beneficiarão com a quarta revolução industrial, empresas como a Cisco, a Siemens e a ThyssenKrupp, afirmam que a implementação da CPS atende à uma demanda popular, e não à agenda das grandes corporações.

Mas apesar de toda essa retórica, uma pesquisa mais cuidadosa revela que o principal impulso por trás da inovadora industrialização da Alemanha não é a satisfação do consumidor, mas sim os benefícios para as multinacionais que planejam adotar esses avanços.
A quarta revolução industrial promete colocar a Alemanha na proa da reestruturação industrial. Como o grupo de pesquisa escreve em seu relatório, é possível que a existência da manufatura alemã dependa da Indústria 4.0. “Se a indústria alemã quiser sobreviver e prosperar, ela precisa ter um papel ativo na quarta revolução industrial", diz o relatório.
A indústria alemã irá investir, anualmente, €40 bilhões na infraestrutura da Internet Industrial até o ano de 2020, de acordo com um relatório da empresa de consultoria Strategy&. Isso representa uma boa parcela do investimento total da Europa, que será de €140 bilhões por ano. Devido à imprevisibilidade dos prazos e da metodologia de implementação, além da necessidade de tecnologias mais avançadas, não se sabe o quanto a Alemanha se beneficiará com o crescimento dessas fábricas inteligentes.

De acordo com o relatório da Indústria 4.0, entre as 278 empresas pesquisadas (a maioria dos setores de manufatura e maquinário), 131 afirmaram já estar "envolvidas” com a Indústria 4.0.”

O envolvimento da maioria dessas empresas se limita à “aprender" sobre a quarta revolução industrial. Apenas um quinto dessas empresas implantaram componenentes CPS em suas fábricas. Entre as empresas que participam ativamente da nova revolução industrial estão a Wittenstein (motores elétricos), a Bosch (equipamento hidráulico), e a BASF SE, pioneira em shampoos e sabonetes personalizados. As três empresas trabalham em parceria com o Centro de Pesquisa de Inteligência Artificial da Alemanha para comprovar a viabilidade da Indústria 4.0.

Um importante adepto é a Siemens AG, a maior empresa de engenharia da Europa, que utiliza seus componentes CPS de forma muito criativa em sua fábrica de Amberg. Lá, máquinas automatizadas encomendadas por outras empresas, como a BMW e a Bayer, são produzidas por máquinas que são, por sua vez, quase completamente automatizadas.

OBSTÁCULOS E DIFICULDADES
Entretanto, existem outros empecilhos, tanto do ponto de vista técnico quanto social, no caminho até a revolução.

Maximizar as vantagens da quarta revolução industrial irá exigir uma grande cooperação entre os diferentes níveis da cadeia corporativa, especialmente para se assegurar de que as máquinas falem a mesma língua. Se um produto não-concluído chegar em uma máquina incapaz de ler seu chip RFID porque ele foi programado em uma frequência diferente, o processo de manufatura poderia ser paralisado. Assim, determinar as plataformas e linguagens universais que permitam que as máquinas dialoguem, independente das fronteiras corporativas, é um dos principais obstáculos para a adoção universal dos sistemas ciber-físicos.

Por outro lado, a homogeneidade também pode ser um problema. O Google, por exemplo, controla 97% das buscas online da Alemanha, e alguns líderes do governo estão preocupados com a possibilidade de um pequeno grupo de empresas monopolizar o mercado da Indústria 4.0.

"O big data necessário para o funcionamento da Indústria 4.0 não está sendo coletado por empresas alemãs, mas sim por quatro grandes empresas do Vale do Silício", disse o Ministro de Economia da Alemanha, Sigmar Gabriel, durante um debate com o Presidente do Google, Eric Schmidt, no ano passado. “Essa é a nossa preocupação."

Outro problema é a segurança: criar redes mais seguras é trabalhoso, e integrar sistemas físicos à internet deixa-os mais vulneráveis a ciberataques. Nos dias pré-internet, os rebeldes destruíam as estruturas físicas das fábricas (como os notórios Luditas). Com a ascensão da Indústria 4.0, os processos produtivos podem ser atacados remotamente, seja pela manipulação do protocolo do produto ou com a paralisação do processo de produção. Como aponta o Instituto Fraunhofer, uma organização de pesquisa alemã, já existe um malware criado especialmente para destruir sistemas de produção ciber-físicos. Com o crescimento das fábricas inteligentes, descobrir novas formas de garantir a cibersegurança e ainda assim usufruir dos benefícios do CPS (como a comunicação automática entre máquinas) se tornará a maior prioridade dessas empresas.

E PARA ONDE VÃO OS EMPREGOS?
Do lado social das coisas, os círculos futuristas vem discutindo a crescente redundância da mão de obra humana e as consequências da proliferação das máquinas, um medo potencializado pela promessa de uma quarta revolução industrial. Esse medo tem muito fundamento, considerando que algumas previsões estimam que em duas décadas 47% dos empregos serão automatizados, o que deixará milhões de trabalhadores desempregados.

Entretanto, a troca de mão de obra humana por máquinas é mais característica da terceira revolução industrial, que provocou um enorme aumento no maquinário automatizado. O objetivo da quarta revolução industrial é fazer com que essas máquinas se comuniquem sem interferência humana. Um exemplo é a fábrica da Siemens, que ainda emprega mais de 1.000 pessoas, em sua maioria funcionário encarregados de monitorar as máquinas e computadores.

A maior preocupação é que a Indústria 4.0 permita que as empresas aumentem sua produção sem necessariamente criar novos empregos, algo que poderia ser um grande problema nessa época de crescimento populacional.

A troca de mão de obra humana por máquinas foi uma característica da terceira revolução industrial. O objetivo da quarta revolução industrial é fazer com que essa máquina se comuniquem sem interferência humana

Essa tendência poderia prejudicar os países em desenvolvimento. Não é de se surpreender que um dos principais estímulos por trás da quarta revolução industrial seja o desejo de competir com a produção terceirizada de países em desenvolvimento (essa não é uma preocupação tão grande na Alemanha quanto em outros países ocidentais, é claro). Essa implementação de sistemas ciber-físicos nos países ocidentais poderia reverter o fluxo de deslocamento da mão de obra, prejudicando as economias emergentes que dependem desses serviços de manufatura. Isso é apenas uma teoria, já que existem poucas pesquisas sobre as possíveis consequências da implementação da Indústria 4.0 no mundo ocidental.

Não importam as promessas de uma maior produção de bens de consumo, de uma mão de obra livre, de bilhões de dólares impulsionando a economia: no final das contas, alguém vai ter que pagar por esse avanço Se a mão de obra humana continuar a ser substituída por máquinas, o número de produtos sendo manufaturados não importará, pois não haverá ninguém para comprá-los. Talvez a quarta revolução industrial irá mudar o mercado de trabalho, como afirmam muitos de seus defensores: de trabalhos chatos e repetitivos para funções mais criativas. Ou talvez nós acabaremos nos matando por um pouco de dinheiro, alimentando fábricas com bicicletas elétricas como no episódio de Black Mirror entitulado “Fifteen Million Merits”.

No entanto, temos uma certeza: a Indústria 4.0 está para nascer, e tudo indica que nós iremos mergulhar numa era inteligente, na qual todos os objetos se comunicarão constantemente, supostamente para nos servir. Esse futuro pode parecer um pouco barulhento, mas não se preocupe — as máquinas falam baixinho, via wireless.

Tradução: Ananda Pieratti