sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Pois é, Putin







Como Putin
Tentou Controlar a Internet

Escrito por Andrei Soldatov e Irina Borogan
16 October 2015 // 11:00 AM CET













A Rússia está reestruturando sua doutrina de segurança de informação para 2016. Nessa nova fase, a internet é definida como grande desafio para a estabilidade política do atual regime.
 
Segundo o esboço do documento, publicado pelo jornal russo Kommersant nesta semana, os "serviços secretos" e as "ONGs controladas" dos países ocidentais usam informações e tecnologias de comunicação "como uma ferramenta para minar a soberania e a integridade territorial" e "para desestabilizar a situação política e social" de outros países.
 
O medo do que acontece na internet cresce dentro do Kremlin. É o reflexo de uma preocupação muito mais antiga. A natureza global e horizontal da internet é, há décadas, uma ameaça ao desconfiado serviço secreto russo, herdeiro direto da antiga KGB.

Nesse trecho exclusivo do The Red Web, texto recentemente publicado por Andrei Soldatov e Irina Borogan, os autores descrevem como o Kremlin tem tentado reescrever as leis que regem a internet para torná-la mais "segura" segundo as normas do serviço secreto russo.

Vladimir Putin estava seguro de que todas as coisas do mundo — incluindo a internet — existiam dentro de uma estrutura hierárquica e vertical. O presidente russo estava convencido de que havia uma figura soberana no controle da internet. Para ele, os Estados Unidos comandavam a rede por meio da sua agência de inteligência, a CIA.

Ele queria acabar com essa hegemonia. 

Enquanto se esforçava para mudar as leis dentro da Rússia, Putin tentava mudar as regras do resto do mundo. O objetivo era fazer com que outros países, sobretudo os Estados Unidos, aceitassem o direito da Rússia de controlar a internet dentro de seu território – isto é, poder censurá-la e suprimi-la caso as informações online afetassem o poder do chefe de estado. 

Andrey Krutskikh devotou toda sua carreira ao controle de armamentos no Ministério de Relações Exteriores da Rússia. Ele se juntou ao serviço diplomático em 1973, logo depois de sair da faculdade, e trabalhou na divisão durante os últimos dezoito anos da União Soviética. Krutskikh admirava o estilo diplomático do intransigente ministro das relações exteriores, Andrei Gromyko, conhecido informalmente no mundo ocidental como Sr. Nyet ( "Sr. Não", em português). Krutskikh sempre descrevia Gromyko como “um dos grandes”.

Desde o início de sua carreira, o trabalho de Krutskikh girava em torno do desarmamento nuclear e dos principais adversários da Rússia, os Estados Unidos e o Canadá. Quando ele tinha 24 anos, em 1975, foi mandado para Salt Lake City como parte de uma comissão soviética encarregada de negociar o controle estratégico de armas nucleares. A experiência de negociar com seus rivais em território americano marcou sua vida. Naqueles tempos, os diplomatas soviéticos tinham muito poder; eles decidiam o destino do mundo e falavam de igual para igual com os americanos. Após o colapso soviético, no fim dos anos 90, Krutskikh manteve seu foco na questão de controle de armamentos e subiu aos poucos na hierarquia do ministério. 

Putin estava convencido de que havia alguém controlando a internet. 

Ele não era um diplomata calmo; seus trejeitos eram enérgicos, expressivos, e suas mãos estavam sempre em movimento. Depois de um tempo no cargo, Krutskikh começou a se indagar como o controle de armamentos se encaixaria no campo dos ciber-conflitos. 

Uma ideia parecida estava surgindo entre um pequeno grupo de generais russos que comandavam a FAPSI, a poderosa agência de inteligência eletrônica vinda da antiga KGB. 

A sede da agência funcionava em um prédio moderno com antenas gigantes no topo, não muito longe da sede da KGB. Assim como o NSA nos Estados Unidos, o FAPSI era responsável pela segurança de informação e pela inteligência eletrônica. Seus generais assistiram ao crescimento da internet com desconfiança durante vários anos. Nos seus primórdios, a internet russa havia sido construída com tecnologia ocidental, e os generais da FAPSI temiam que ela pudesse ser invadida pelos americanos. 

O líder desse grupo de desconfiados era Vladislav Sherstyuk, coronel-general da divisão de inteligência da agência e agente da KGB desde 1966. No começo do anos 90, ele se tornou chefe do misterioso e poderoso Terceiro Departamento do FAPSI, setor encarregado de espionar as telecomunicações estrangeiras. Todos os centros russos de espionagem eletrônica de outros países respondiam a esse departamento, incluindo o centro de intercepção de rádio de Lourdes, em Cuba, encarregado de monitorar e interceptar rádio-comunicações vindas dos Estados Unidos.
Sherstyuk era um especialista em espionagem; ele estava determinado a usar a telecomunicação para roubar segredos americanos e proteger a Rússia de espiões como ele. Isso fazia com que ele desconfiasse da internet, onde nada estava sob seu controle. 

Quando a guerra da Chechênia estourou, Sherstyuk foi posto no comando da equipe da FAPSI enviada para o centro do conflito, onde ele passou a interceptar comunicações chechenas. Em dezembro de 1998, ele foi indicado como diretor. Entre várias funções, a FAPSI tinha um papel muito importante no controle das redes de comunicação mais sigilosas do governo russo. 

Krutskikh e os generais da FAPSI falavam a mesma língua de desconfiança — um dialeto de ameaças representadas pela internet. No início de 1999, Krutskikh participou da elaboração de uma resolução para a Assembléia Geral das Nações Unidas que, do ponto de vista russo, as informações da internet poderiam ser utilizadas "para fins criminosos ou terroristas" e até para ameaçar "a seguranças de cada Estado". Em outras palavras, a tecnologia da informação era perigosa e deveria portanto ser controlada. A resolução foi aprovada sem passar por uma votação. 

Krutskikh e os generais viam a internet como o campo de batalha da guerra da informação. (Esse termo não deve ser confundido com a ciberguerra, que consiste em proteger as redes digitais de uma determinada nação de possíveis ataques de hackers.) Para os generais, representava algo ameaçador e incluía "desinformação e informações tendenciosas" para incitar a guerra psicológica e manipular as escolhas dos indivíduos. 

Em dezembro de 1999, Sherstyuk foi transferido da FAPSI para o Conselho de Segurança Russo, um comitê consultivo subordinado ao presidente. Lá, ele passou a supervisionar um departamento especializado em segurança da informação e trouxe com ele suas ideias sobre a internet. O Conselho de Segurança costuma ser composto por oficiais de alta patente, incluindo o presidente, que se encontram de tempos em tempos.
Em 2000, a equipe de Sherstyuk elaborou a “Doutrina de Segurança da Informação da Federação Russa", que incluía uma lista longa de ameaças que ia do "comprometimento de chaves e proteção criptográfica de informações", passando por "desvalorização dos valores espirituais", "redução do potencial espiritual, moral e criativo da população russa" e chegava à "manipulação de informações (desinformação, omissão e distorção)." 

Uma das ameaças mais sinistras do documento é "o desejo de certos países de dominar e infringir os interesses da Rússia no espaço de informação global". 

 O Kremlin à noite. (Crédito: Axel Axel/Flickr)

Putin aprovou a nova doutrina em 9 de dezembro de 2000. A FAPSI foi desmantelada em 2003, mas as ideias daqueles generais desconfiados continuaram vivas. Sherstyuk continuou no Conselho de Segurança e algumas de suas ideias foram reiteradas quando Nikolai Klimashin, um alto oficial do FSB que compartilhava algumas de suas opiniões, foi transferido para o Conselho de Segurança. Sherstyuk fundou e comandou o Instituto de Segurança da Informação da Universidade Estadual de Moscou, um grupo de pesquisa voltado para a política externa e a segurança da informação do governo russo. 

Na mesma época, Krutskikh se tornou o chefe-adjunto do Departamento de Segurança e Desarmamento do ministério. 

Krutskikh vinha há anos repetindo em conferências internacionais que a Rússia queria controlar seu próprio pedaço da internet. Enquanto outros, incluindo os Estados Unidos, viam a internet como um reino de liberdade aberto para todo o mundo, Krutskikh insistia que a Rússia deveria ter o poder de controlar o que é dito dentro de seu território. Krutskikh temia a possibilidade de que, sem esse controle, forças hostis pudessem usar a internet para atacar a Rússia e seu povo.


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